Silaine Terra

Se é verdade o ditado que diz que quem conta um conto aumenta
um ponto, tem muita gente sofrendo com os vários pontos
acrescentados nas histórias contadas por aí. Os
mexeriqueiros de plantão estão com olhos, ouvidos, narizes
e orelhas em pés para qualquer fato que possa contar a intimidade
de um conhecido, ou não, e até mesmo (e principalmente)
que possa denegrir a vida alheia. Mas por que o ser humano é tão
curioso? Por que espiar a vida alheia é tão interessante?
Haja vista a onda de reality show que invadiu a televisão brasileira
e é assunto constante nas mesas de bares, padarias e entre amigos.
A origem da palavra fofoca vem do verbo
mexericar que significa falar mal de alguém e que deriva do forte
odor que a fruta mexerica deixa na mão. Por isso, não há
como esconder que se comeu uma mexerica. Essa mesma inclinação
reveladora tem o fofoqueiro. Pedir segredo para o fofoqueiro é
como pedir alguém que não revele que comeu uma mexerica.
Muitas vezes aquilo que parece, pode não
ser a realidade. E muito cuidado aqueles que acham que onde há
fumaça há fogo ou que acreditam que o povo aumenta mas não
inventa. Quem garante é o colunista social Marcelo Nascimento,
que durante dois anos apresentou o programa Balacobaco, em uma emissora
de rádio de Itaperuna. Ele afirma que abomina a fofoca mas confirma
que sabe de muitas histórias na cidade através da boca de
outras pessoas. Apesar de dizer que não gosta de mexericos, ele
criou a personagem Loura Má que era responsável pela fofoca
da coluna. De acordo com ele, era uma forma de apimentar a coluna.
Entre as muitas histórias conhecidas
pelo colunista estão a de uma mulher que foi surpreendida no Rio
de Janeiro traindo o marido e de empresários bem-sucedidos e aparentemente
bem-casados que durante à noite procuram garotões de programa.
Além de histórias de mulheres de sociedade que pegam sapatos
em lojas da cidade na sexta-feira, usam durante o fim-de-semana e devolvem
na segunda, dizem que não serviu.
“No caso da mulher, o casal quase
se separou, mas vive hoje de aparências. O fofoqueiro que contou
para o marido não tinha interesse na separação do
casal, fez isso de maldade. A fofoca é falta de trabalho, de tempo
pra si mesmo e ocupação que gera tempo para falarem da vida
dos outros. No Balacobaco, as pessoas ligavam e deixavam recados para
pessoas largarem namoradas e contarem que viram pessoas traindo outras.
Mas não me envolvo nessas histórias. Quando tenho que queimar,
queimo os políticos que fazem por onde serem queimados. Não
gosto de distribuir assunto de ninguém. As pessoas tem que viver
em liberdade, sem medo de fofoca. O meu lema é o mesmo da drag
queen Nany People: não faça direito, faça do seu
jeito, desde que com muita responsabilidade”, disse Marcelo.
Outras histórias - Agora, imagine
a seguinte cena: Juiz de Fora(MG), um ônibus leva pessoas para trabalharem
em uma manhã como outra qualquer. Uma senhora conversa com uma
colega sobre a briga que aconteceu de madrugada na casa de um vizinho
que não aceita o namoro da filha. A jovem chega tarde em casa(quase
de manhã) e os pais não abrem a porta, começando
a confusão. Um outro vizinho, que foi acordado pelo desentendimento,
chama a polícia e as coisas se complicam ainda mais para a garota.
Enquanto a história vai se desenrolando a caminho do trabalho,
os passageiros são envolvidos pelo assunto e vão adiando
a descida do ônibus para saber o final da trama, contada com tanta
ênfase pela senhora.
A história foi vivida pela psicóloga
Emília Maria de Oliveira que estava no ônibus, indo para
o trabalho e que como os outros passageiros, por curiosidade em saber
o final da história, ía adiando a descida do ônibus
para o próximo ponto. “As pessoas queriam descer, mas, mais
que isso, queriam saber o final da história e comentavam que estava
ficando longe do trabalho delas. Não consegui saber o final da
história, mas foi muito divertido”, confessou Emília
que sabe do lado ruim da fofoca.
É importante frisar no caso contado
que o importante não é o conteúdo, nem o fim da história,
mas a curiosidade do ser humano por um assunto, envolvendo pessoas que
ele nem conhece. Por isso a psicóloga Emília adverte que
o fato das pessoas se importarem tanto em saber sobre a vida dos outros
muitas vezes seria uma compensação por frustrações
próprias. Além de pouca atenção e cuidado
com a própria vida. Para ela, a maioria dos fofoqueiros são
pessoas que fazem comparações entre a própria vida
e de outras pessoas.
“Querem saber como as outras pessoas
reagem em situações que ela já enfrentou e têm
curiosidades em saber de problemas que acreditam que nunca enfrentariam.
Acredito que as pessoas que fazem fofoca levando as derrotas dos outros
para frente é porque não querem olhar para os próprios
erros. As pessoas mais incapazes são as que mais fazem fofoca”,
observou a psicóloga.
Dia 07 de agosto terá muito mexeriqueiro de plantão
no concurso ELITE MODEL LOOK 2004 etapa Itaperuna-Brasil por Marcelo
Nascimento. |
Mas às vezes, o
tiro pode sair pela culatra. Em alguns casos como aconteceu com o pai
do designer da Comportamento, Frank Arcanjo, a fofoca pode ser a alma
do negócio. Na época em que o senhor Fleurir Arcanjo morava
com a família no interior de São Paulo, era proprietário
de um bar e acertou a quadra da loteria e inventou que tinha acertado
a quina (que representava um dinheiro significativo). Mas ele tinha um
cunhado, do tipo de pessoa que não sabe guardar segredos, e contou
para ele, pedindo segredo absoluto. Uma espécie de teste para confirmar
a fama do cunhado. No outro dia, o bar amanheceu lotado de clientes, amigos
e conhecidos que o dono do estabelecimento não via há tempos.
Entre uma cerveja e outra, eles faziam pedidos de todos os tipos para
seu Fleurir, de botijões de gás a motos, acreditando na
história da quina.
“Meu tio não se importou quando
descobriu a história e se divertiu com o bar cheio. Eu não
lembro do meu pai ter faturado tanto em um só dia no bar. Quando
as pessoas perguntavam sobre o prêmio, ele desmentia”, contou
Frank.
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